Habitar o espaço público: a escola como casa

André Santos (arquitecto FAUP/PDA)

Este artigo propõe-se explorar a possibilidade de consideração do espaço escolar enquanto espaço habitacional. Partindo da formulação de Bañon, que define o espaço habitacional enquanto lugar de gestos reiterados, e em articulação com o modelo habitacional positivista descrito por Ábalos, apontam-se as características morfológicas e funcionais que permitem reconhecer a escola enquanto lugar de hábitos. É analisado o processo de transferência de padrões de domesticidade para o espaço escolar a partir da experiência de requalificação das escolas com Ensino Secundário promovida pela Parque Escolar, EPE.

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Arménio Losa e Cassiano Barbosa. Estórias de fazer moderno em Moçambique

Susana Gomes (arquitecta FAUP/PDA)

A presente história enquadra-se nos “verdes anos”ii cinquenta do século XX, “decisiva para a arquitectura em Portugal. Nela se assistiu por um lado à agonia e finalmente ao desaparecimento dos empecilhos que barraram durante bastante tempo o caminho aos valores da modernidade e por outro à viragem para uma diversificação das perspectivas e fontes de referência do trabalho dos arquitectos portugueses”. 
A dupla de arquitectos Arménio Losa e Cassiano Barbosa, com gabinete montado desde os anos 30, integra um conjunto de profissionais, sediados no Porto, que “pela decidida intervenção na defesa da modernidade foi (e ainda é) uma referência”iv para a geração futura. 
Os seus projectos na cidade invicta têm sido amplamente divulgados, mas o que nesta comunicação se propõe é a apresentação de uma estória incógnita para muitos.

Reabilitação urbana: o novo paradigma de fazer a cidade

Ana Lídia Virtudes (UBI)

Após décadas de praxis urbanística assente na expansão urbana, o desafio actual é a actividade permanente e contínua de intervir na cidade pela reabilitação urbana. São dois, os diplomas que reiteram este apelo: o regime jurídico da salvaguarda do património e o regime jurídico da reabilitação urbana. Em que medida se poderá afirmar estarmos perante uma mudança de paradigma: da expansão urbana à reabilitação urbana?
É sobre esta questão que se reflecte neste artigo.

Entre a Casa e a Cidade, "résidentialisation": espaços intermédios na habitação social francesa

Álvaro Fernandes Andrade (arquitecto, FAUP/PDA)

A residencialização é um conceito francês com cerca de uma década de existência que, nesse período, se afirmou como o elemento estruturador das intervenções físicas e espaciais nos bairros de habitação social desse país. Propondo uma radical transformação da estrutura dos espaços modernistas do habitat social dos anos 60/70, pressupõe uma reestruturação dos mesmos no sentido de permitir criar uma nova entidade colocada entre o que permanece como Público, reduzido face à globalidade anterior, e o que se mantém como Privado, materializado pelo edificado. Trata-se dos “espaços intermédios”, espaços exteriores de uso privado, individual e/ou colectivo que se conceptualizam e formalizam como mediadores, como elementos de transição e articulação, entre pólos dialécticos do ser urbano, dos quais a Casa e a Cidade são expressões paradigmáticas.

A viagem na Arquitectura Portuguesa do século XX

José Fernando Gonçalves (arquitecto)

A viagem de arquitectura marcou o pensamento e produção arquitectónica da modernidade, quer porque a experiência da viagem revelou que o conhecimento em arquitectura incorpora necessariamente uma aproximação sensorial ao espaço construído, quer porque no trânsito das ideias e culturas que esta
proporciona, a história se redescobriu como uma ferramenta de projecto que propõe uma metodologia geradora de novas sínteses: ao desenhar, o arquitecto moderno questiona as formas do passado diferentemente, porque as vê com o pensamento e interpreta com a necessidade.

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Marcel Breuer versus Álvaro Siza. Considerações a propósito de dois processos de reformulação conceptual do modo de habitar.

Raquel Geada Paulino (Arquitecta, FAUP/PDA)

A possibilidade e pertinência de empreender uma reflexão, tendo por base uma leitura da obra desenvolvida por Marcel Breuer e por Álvaro Siza, resultam do facto de, em ambos os percursos e no que diz respeito especificamente à temática da habitação unifamiliar, se identificar uma mesma postura que se prende com a introdução de uma reformulação tipológica que, em ambas as situações e de forma manifestamente diversa, se revela de grande alcance e expressão.

Não se pretende defender a tese de que existe uma relação directa entre os referidos percursos, mas identificar, a partir de uma leitura comparada, algumas convergências de princípio que concorrem – a par de outras abordagens e desde a 1.ª metade do séc. XX -, para uma refundação do universo doméstico. Do exercício de confronto emerge um conjunto de temas que orientam e caracterizam a produção arquitectónica de A. Siza e que, do nosso ponto de vista, estruturam a matriz de leitura que permite identificar os desenvolvimentos tipológicos operados. Pretende-se, desta forma, esclarecer o processo de reformulação do modo de habitar explorado por A. Siza.

Leituras da produção [moderna] da casa: as HE* nos anos 50 e 60 em Portugal

*Habitações Económicas - Federação de Caixas de Previdência

Maria Tavares (arquitecta FAUP/PDA)

Um dos territórios específicos do grande debate da modernidade em Portugal, é o da habitação de âmbito económico.
Entendemos que as Habitações Económicas – Federação de Caixas de Previdência, organismo que se dedica ao longo de 25 anos, ao financiamento e promoção do projecto e construção de Casas de Renda Económica, com a aplicação de capitais da Previdência, proporciona a partir do final da década de 40 do século XX, mas fundamentalmente ao longo dos anos 50 e 60, este mesmo debate, introduzindo um entendimento actualizado sobre a forma da casa, que importa explorar.

Revistas Portuguesas de Arquitectura: Evolução nos últimos dois decénios (1988-2008) e revisão dos seus antecedentes

Ângela R. Lei Oliveira (FAUP) e Gonçalo Furtado (FAUP)

O presente artigo foca o universo das revistas portuguesas de arquitectura, incidindo sobre a sua evolução nos últimos dois decénios. Pretende-se reconstituir um património documental, transcritor do evoluir do evento arquitectónico e possível dinamizador do debate disciplinar, reconhecendo um mediador privilegiado entre a especialidade e sua audiência. Propõe-se ainda, observando a recente mutabilidade operativa deste universo, identificar modos de veiculação da cultura arquitectónica na imprensa periódica portuguesa contemporânea.

Considerando tais pretensões, procede-se inicialmente ao enquadramento do tema numa breve revisão da história do periodismo português especializado em arquitectura editado entre 1900 e 1988. Após esse registo, desenvolve-se então a matéria central deste artigo, avaliando um extenso corpo de variabilidade operativa que se desenvolveu nos últimos dois decénios. Finalmente, elabora-se uma síntese conclusiva sobre a temática desenvolvida. Importa referir que a matéria a expor provém de uma análise precisa do universo em causa, sendo sustentada por fontes bibliográficas e também por uma investigação de campo, que contemplou o escrutínio das revistas portuguesas de arquitectura, em particular, das editadas entre 1988 e 2008.

Portugal Pequenino

Cristina Emília Silva (arquitecta FAUP/PDA)

A obra do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, (1937/1961), promovida por Bissaya Barreto e desenhada pelo arquitecto Cassiano Branco, tem sido habitualmente conotada com o Regime. Neste artigo, através da análise do contexto alargado da sua produção arquitectónica, demonstramos que esta obra é antes o resultado da problemática da construção da nação, que tem inícios no século XIX, a par do que se passava na Europa, a qual atravessa a Ditadura de Salazar.

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Casa Protótipo: afirmação de um caminho experimental em arquitectura

Maria Tavares (arquitecta FAUP/PDA, bolseira FCT)

Uma Casa Protótipo foi construída em Portugal em 1957, com a responsabilidade de Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu da Costa Cabral. Decorrentes da história da arquitectura moderna, os autores propõem um novo conceito de modernidade, compondo uma espécie de ajuste/adaptação a um novo contexto, a um novo imaginário: o da passagem de um conceito de família, para um de grupo doméstico, tendo um curioso impacto na disposição dos espaços da casa.
A Casa Protótipo acolhe uma série de experimentações técnicas, funcionais e formais, proporcionando uma atmosfera nova que importa percorrer.

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Ciência, política e habitação social. Alguns contributos da sociologia francesa para uma redefinição da sua relação

João Queirós (Sociólogo, IS-FLUP)

O presente artigo procura demonstrar, através da apresentação e discussão de alguns ensinamentos facultados por interessantes pesquisas sociológicas recentemente desenvolvidas em França, de que forma pode a sociologia contribuir mais explicitamente para a compreensão dos processos locais que, em casos como o português e, em particular, portuense, vêm dificultando o estabelecimento de uma relação mais próxima e mutuamente vantajosa entre acção política e conhecimento científico sobre a cidade, em especial quando o que está em causa é a perspectivação e confrontação da realidade da “habitação social”, porventura a realidade urbana sobre a qual menos se sabe, mas que, precisamente por isso, mais ideias feitas, não ditos e mal-entendidos gera.

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Da arte popular às culturas populares híbridas

João Leal (Antropólogo, FCSH/UNL)

Gostaria de apresentar dois argumentos principais em defesa do Museu de Arte Popular (MAP), que o presente governo, mal avisado, decidiu encerrar. O primeiro diz que, num quadro – como o que caracteriza a contemporaneidade – em que tudo se tornou susceptível de patrimonialização, faz todo o sentido encarar o MAP como um património que deve ser defendido ou, para ser mais específico, como um museu que deve ser musealizado. O segundo argumento diz que, num quadro – como o que caracteriza a contemporaneidade – em que as culturas populares têm vindo a ser reformatadas a partir de ideias como a hibridez e a criatividade, faz todo o sentido dinamizar o MAP, fazendo dele uma plataforma de diálogo com essas novas formas da cultura popular. O primeiro argumento extrapola para o caso do MAP ideias sobre o património defendidas por historiadores como Pierre Nora e David Lowenthal. O segundo tira consequências de debates sobre as culturas populares pós-modernas protagonizados por antropólogos como Nestor Garcia Canclini ou David Guss.

Artigo publicado originalmente no Monde Diplomatique (edição portuguesa), nº 33, 2009, na sequência da intervenção proferida em Lisboa, no dia 20 de Junho de 2009, nos jardins envolventes do edifício do Museu de Arte Popular.

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Das casas octogonais de Orson Fowler à “Casa de amanhã”

Eliseu Gonçalves (arquitecto FAUP/PDA)

A contínua exigência social por uma habitação digna e o voluntarismo positivista da Revolução Industrial determinaram transformações na concepção do espaço doméstico que transitarão para o século XX. Evidencia-se de modo particular as modificações associadas a uma inventiva técnica gerada, em primeiro lugar, pelo clima de "eficácia produtiva" e "progresso social", próprio da industrialização oitocentista, e depois, pelas necessidades impostas pela guerra de 1914 e pela crise bolsista de 1929.
A "arquitectura da casa" será elaborada a partir de múltiplos interesses e relações onde se sublinha a bondade tecnológica da indústria, a democratização do conforto e a ideologia de um ‘homem novo’. A cadeia de acontecimentos aberta em meados do século XIX com a divulgação do livro, A Home for All or The Gravel Wall and Octagon Mode of Building New, Cheap, Convenient, Superior and Adapted to Rich and Poor, permite construir um sequência histórica que dá particular visibilidade a essas relações.
No caso estudado, a ideia de uma arquitectura possível de ser produzida em massa para garantir o acesso geral às regalias tecnológicas do mundo moderno parece encontrar no ‘panóptico’ a forma ideal da sua realização.

O texto tem como objectivo referenciar algumas dúvidas ligadas ao objecto arquitectónico enquanto artefacto técnico nas vésperas da formação do Movimento Moderno. Pretende-se alinhar um conjunto de acontecimentos que transportam para meados do século XIX as preocupações relacionadas com a industrialização da casa; problema fortemente enraízado nas preocupações do Movimento Moderno e que permanecerá constante na agenda do projecto de Arquitectura até à contemporaneidade.
Esta pequena inquirição sobre o processo de ‘democratização’ da casa e do conforto a partir da divulgação e vulgarização em larga escala de conhecimentos e produtos tecnológicos inauditos, tem a sua origem num texto anónimo singular que apareceu em 1933, na revista A Arquitectura Portuguesa, e que remete o leitor para algumas novidades patentes na exposição internacional de Chicago: A Century of Progress International Exposition. Indirectamente, o artigo conduz-nos até meados de oitocentos, despoletando uma ‘reacção em cadeia’ onde se cruzam episódios de filantropismo protagonizados por inventores, industriais, autodidactas, educadores e cientistas.

Imagem: FOWLER, O. S., Fowler’s Practical Phrenoloy, New York, Fowlers and Wells, 1840.

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